A convite do Ministério da Cultura, estivemos na Bienal do Livro do Ceará (dias 14 e 15 do corrente) participando do Ciclo de Debates sobre Livro e Leitura. Praticamente todos os Estados do Nordeste se fizeram presentes. Na oportunidade, apresentamos aos editores e livreiros nordestinos um esboço de projeto que acreditamos oportuno, relevante e urgente.
Como se sabe, os Estados que integram a região Nordeste comportam-se, no plano cultural, como ilhas que não se interligam, não dialogam umas com as outras e, como conseqüência, perdemos uma fatia significativa de um mercado bastante promissor. Por oportuno, vale lembrar que o Nordeste consome 25% dos livros editados no Brasil. Num mundo regido pelas leis da economia globalizada, isolar-se é condenar-se a desaparecer. Focados no eixo Rio/S. Paulo, perdemos a capacidade de olhar nosso próprio entorno, fato cujas conseqüências são desastrosas sob todos os aspectos. Essa conduta de “neo-colonizados” é extremamente danosa à nossa auto-estima, aos produtores de bens culturais e, principalmente, à economia da região.
No caso específico das editoras, estamos literalmente à margem do mercado livreiro do País. Não dispomos de um sistema de distribuição integrado e eficiente; não temos recursos financeiros para bancar anúncios na mídia ou alugar estandes nas feiras e bienais que se realizam pelo país afora; não somos consultados no processo de escolha dos livros comprados pelo MEC ou MINC; não conseguimos espaço para autores que editamos no mundo dos eventos ligados ao livro. Resultado: prejuízos para os editores, os livreiros e, principalmente, para os leitores nordestinos.
Apresentamos algumas sugestões que, em médio prazo, podem mudar esse quadro. A primeira delas: criação de uma associação (ou cooperativa), com sede num dos Estados do Nordeste e representação em cada capital nordestina, tendo como objetivo: l - cadastrar todas as editoras que operam no mercado nordestino; 2 - elaborar um catálogo-geral com os títulos das obras publicados por nós; 3 - viabilizar a participação do maior número de editoras em feiras, salões e bienais em estande coletivo; 4 - propiciar aos nossos autores maior visibilidade; 5 - editar antologias de contos, poemas, crônicas, etc com autores de todos os Estados nordestinos; 6 - editar um periódico (boletim, jornal ou revista) com ampla circulação em todo o Nordeste; 7 - estabelecer canais de comunicação, em caráter permanente, com secretarias de educação e cultura da região; 8 - promover regularmente encontros de editores, autores e livreiros para discutir as questões do interesse de todos e elaborar estratégias e planos de ação; 9 - fazer gestão junto a governantes, ministros e parlamentares no sentido de implementar políticas de valorização do livro, notadamente nas escolas e bibliotecas públicas.
A receptividade da proposta foi bastante boa e serviu para desencadear uma discussão acalorada sobre a política do livro no Brasil, notadamente a do livro didático, cujo monopólio pertence a um cartel de 6 grandes editoras. Se o projeto vai vingar ou não, depende da capacidade e da disposição de todos nós. Afinal de contas, como ensinava J. Cabral de Melo Neto: “muita diferença faz / entre lutar com as mãos / e abandoná-las para trás”. É pagar pra ver.