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Rosa cheirava?

ROSA CHEIRAVA?

 

            Li “O Monge do Hotel Bela Vista”, de Edmilson Caminha, publicado pela Thesaurus Editora neste ano de 2008. Edmilson Caminha é meu amigo pessoal. Mas quem escreve aqui não é o amigo; é um leitor exigente que, diante das infinitas opções de leituras à sua disposição, gosta de fazer o papel de advogado do Diabo com aqueles livros que escolhe para ler.

            O primeiro passo no critério de leitura desse leitor exigente é um conselho de Jorge Luís Borges: “você não está gostando de um livro, ou não está compreendendo-o, abandone-o. Há milhares de outros livros que você pode ler, compreender e, deles, gostar.” Por esse primeiro passo, “O Monge do Hotel Bela Vista” passou tranquilamente. Compreendi-o plenamente e,em parte, apreciei seu conteúdo.

            Antes de chegarmos ao segundo passo, leitor, é necessário que eu explique o que é esse livro de que estamos tratando. Ele é uma obra constituída de 61 cartas trocadas entre Edmílson Caminha e Antônio Carlos Villaça no período de 08-07-1980 a 19-01-1991. Feito isso, vamos ao segundo passo, que se forma de perguntas: os dois epistológrafos foram sempre sinceros em seus textos? Não, infelizmente. Caminha faz elogios em excesso a Antônio Carlos Villaça, e este enaltece Caminha como poeta. O tempo, juiz implacável, mostrou que Caminha não é poeta. Ele próprio, há muito tempo, já desistiu de fazer poesia.

              Caminha agiu certo ao censurar trechos de cartas de Villaça? Agiu mal, muito mal! Na carta XXVII, o autor do livro omite passagens que ele considera como íntimas da vida de Guimarães Rosa. Que intimidade é essa? A revista Época (08-09-09) publicou cartas eróticas de Guimarães Rosa para sua mulher Aracy. Ele diz que ela tem uma boquinha gulosa e sabidíssima, dentre outras insinuações voluptuosas. Chama à própria mulher de “minha cocaína”. Rosa cheirava? Sei lá. Em sua novela “Dão – Lalalão”, através da encantadora personagem Doralda, ele se refere a essa droga também. Para mim, nada importa se ele cheirava ou não. Ou se fazia coisas piores Então de que adianta Caminha suprimir trechos de uma carta sobre Rosa, espicaçando a curiosidade do leitor, se a Época publicou cartas íntimas do próprio autor? Para que essa censura, se na própria obra desse autor, a cerveja, a cocaína, a violência, o erotismo (é impossível ler a novela “Buriti” sem ficar excitado) e até um pacto com o Diabo rolam soltos?

            Outra carta censurada é a de número XXIX, na qual Villaça comenta sobre Mário Palmério. Ora, a respeito desse autor, Mário Prata, no seu “Minhas mulheres e meus homens”, escreve: “O autor de Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” tinha preguiça de escrever (...) Ficava nu na varanda de sua fazenda, deitado na rede, lendo os jornais do Rio e uma índia sentada ao lado, coçando o saco dele. Juro.” Aí está um pouco da intimidade de Mário Palmério, que, como qualquer outra, por “pior” que seja, em nada diminui o valor literário desse autor.

            Na terceira carta censurada, percebe-se perfeitamente o que aconteceu, não obstante o trecho suprimido.

            Cabe ainda perguntar: Caminha censurou essas cartas com medo de algum processo de algumas das famílias dos autores comentados? Deixa processar! Muito pior do que um processo assim é o irreparável prejuízo que a família de Guimarães Rosa deu à Literatura Brasileira, ao não se entender com a Editora Objetiva nem permitir a inclusão de contos desse autor na antologia “Os Cem melhores Contos Brasileiros do Século”. Família! Ô raça!

            Por fim, ainda uma pergunta: por que a correspondência termina em 1991, se Antônio Villaça só morreu em 2005?

            Bem, são perguntas que uma segunda edição, melhorada, de “O Monge do Hotel Bela Vista” pode responder e aumentar o valor desta afirmativa: o livro vale a pena.

 

                                                        W. Ramos     


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