O CAÇADOR DE PIPAS
O que é uma narrativa esteticamente boa? O que torna uma narrativa cativante? Dentre as várias respostas que podem ser formuladas a essas perguntas, uma se destaca. Uma narrativa esteticamente boa e cativante é aquela que apresenta personagens que nos levam ao ódio, ao amor, à comiseração, à revolta, à indignação, às lágrimas... Ou seja, às mais diferentes reações emotivas. Se tudo isso estiver narrado com criatividade conotativa, melhor ainda.
“O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseine, é um romance assim. Ele revolve, no mais fundo de nossa consciência, muitas emoções. Destas, uma das que mais me revoltaram foram as injustiças das quais é vítima Hassan, que é o caçador de pipas do romance, o menino que tem um verdadeiro faro para descobrir onde elas vão cair , e é o primeiro a pegá-las. Pela trama narrada, o leitor pensa que ele é da etnia hazara, talvez a mais discriminada dentre as etnias que formaram o Afeganistão (antes de o famigerado Talebã passar algum tempo no poder naquele país, ela constituía aproximadamente 3,5% da população. Hoje, talvez esteja exterminada).
Quando penso em Hassan, me pergunto o seguinte: como é possível, em pleno século XX, uma pessoa agüentar tanta discriminação? Como é possível uma pessoa suportar tanta humilhação e quase não reagir, porque acredita que sua classe social é mesmo inferior? Como é possível que um pai permita que um filho sirva de criado a outro filho, apenas porque a mãe de um deles é uma hazara e a outra era professora universitária? É difícil aceitar que as respostas a essas questões se fundamentem na segregação social, no fato de que determinadas etnias são consideradas inferiores e por isso desprovidas de alguns direitos importantes. Porém o mais brutal ainda é que o preconceito está tão enraizado no mais fundo da consciência de um hazara, que ele se conforma e aceita como natural o fato de ele ser cruelmente discriminado e até mesmo assassinado como se fosse um cão asqueroso.
Uma das frases mais bonitas de “O Caçador de Pipas” é esta hipérbole pronunciada por Hassan, dirigindo-se a Amir: “Por você, faria isso mil vezes.” No leitor, porém, fica a dúvida: ele afirmou isso pela grande amizade a seu amigo ou porque é seu fidelíssimo empregado? Ou são as duas coisas? É impossível determinar a resposta exata.
Mas há também outras emoções no romance, emoções positivas, digamos assim, como a bela história de amor entre Amir, que é o personagem-narrador, e Soraya. É um amor que contrabalança o excesso de preconceito e confirma a influência da cultura ocidental em Amir.
Há ainda o retorno de Amir a seu país de origem, o Afeganistão, para tentar reparar as tremendas injustiças que ele cometera contra Hassan. É a tentativa de um homem de ajustar contas com seu passado, tentativa da qual raríssimos seres humanos não sentem necessidade.
W. Ramos