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PIAUÍ - Um Estado de Surpresas
Amarante

“O Parnaíba – velho monge / As barbas brancas alongando...” Com esses versos, o poeta Da Costa e Silva, autor da letra do hino do Piauí, descreve o rio Parnaíba, por isso também conhecido como “velho monge”. De sua margem avista-se a cidade maranhense de São Francisco, com suas serras de contorno regular e formato pitoresco.
 
Um busto de Da Costa e Silva. Do alto do Mirante, contempla esse horizonte amarantino, observando o rio passar com a mesma vida dos tempos em que lhe dava inspiração. Disse o poeta: “A minha terra é um céu, se há um céu sobre a terra”, colocando nesse verso toda a sua força poética. Amarante é uma cidade que ainda lembra os anos em que foi Vila de São Gonçalo, no início do século passado.
 
Guarda uma preciosidade cultural: a comunidade negra Mimbó, instalada a pouco mais de 20 quilômetros da cidade, de onde se avista o rio Canindé passar. Lá vive em harmonia uma média de 400 negros, embora de forma rudimentar, com casas de palha e barro. Segundo informações de um de seus membros, no início da década de 80 uma forte cheia do rio Canindé os obrigou a subir o morro, fazendo-os abandonar a clareira que antes habitavam. A comunidade conta com luz e água encanada, e já começa a mostrar as influências trazidas por seus vizinhos mais próximos.
 
Como forte influência das manifestações populares tradicionais, o Pagode de Amarante é referência cultural da cidade. Dançado inicialmente pelos negros, o pagode encanta pelo seu ritmo e pela constante participação de todos os que o assistem. Na cidade de Amarante, a 156 km ao sul de Teresina, o pagode já se tornou uma tradição. Todos os sábados, os tambores invadem os terreiros das beiras dos rios Canindé ou Parnaíba, mantendo uma tradição que vem de longe, dos tempos em que os negros chegaram ao Brasil como escravos comercializados pelos portugueses.
 
Duas vozes e tambores dão o toque básico do Pagode de Amarante. As cantigas vão surgindo, tradicionais, improvisadas, mesclando-se entre as vozes dos cantadores, cujos versos às vezes saem da criação momentânea. Enquanto cantam, formam-se duas filas de participantes velhos e jovens, que aos pares vão se cruzando sem obedecer a uma coreografia pré estabelecida.
“Cada par vai improvisando rodopios, sapateando e gingando”, descreve o professor Noé Mendes de Oliveira, já falecido.
 
 “As negras requebram, enquanto os homens lhes fazem galanteios, numa incrível exuberância sensual”. Noé acrescenta que os homens dançam batendo em matracas, chamadas “gafanhotos”. É uma espécie de castanhola, feita de um pau oco, medindo uns 15 centímetros. O seu uso é típico do Pagode Amarante e produz um som estranho, alucinante e belo. Os gestos são a base dos dançadores que, embora não cantem, produzem gritos e tornam a dança cheia de sensualidade, de riqueza coreográfica e de ritmo afro contagiante.
 
 

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